
Henrique Arantes, Rita de Cássia dos Santos,Lourenço Andrade e Ronis Cláudio. "Reunião realizada em janeiro de 2009 para reavaliação da Carta de Princípios" ALDEIAS PARA UM NOVO MUNDO Uma outra comunidade é possível A contrapartida local do Fórum Social Mundial
Carta de Princípios
1-A crise. Qualquer cidadão ou cidadã sente, entende ou percebe o fato de estarmos hoje vivenciando uma profunda crise na história da humanidade. Esta crise atinge todos os aspectos da vida social. É uma crise não só provocada pelo capitalismo na sua fase atual – o neoliberalismo –, mas por velhos sistemas, estruturas e idéias conservadoras que herdamos do passado.
2-Os desafios. O velho e o novo, a vida e a morte confrontam-se, cada vez mais e com mais intensidade, nestes últimos dias. Os desafios são os maiores enfrentados pela humanidade até hoje. Estamos no limite da sobrevivência, pois a violência, a desigualdade, a injustiça, a corrupção, o racismo, o sexismo e a iniquidade atingiram níveis jamais vistos.
3-A transição para um novo mundo. Entretanto, lutamos para que seja uma crise de transição para um novo mundo, numa outra comunidade. Depende de nós, ela é possível. É preciso, então, empreender um longo e sustentável processo de mudanças, transformações e revoluções, em todos os campos da vida, da relação dos homens entre si e dos homens com a Natureza. Queremos transitar para outro mundo e para outra comunidade com paz, dignidade, justiça, direitos humanos, equidade, fraternidade, solidariedade e diálogo, sem preconceitos, num mundo de pluralidade.
4-O Fórum Social Mundial. O surgimento do Fórum Social Mundial em janeiro de 2001 - Porto Alegre, Brasil - foi um acontecimento notável e histórico. Em primeiro lugar, o Fórum se constituiu numa afirmação pela cidadania mundial, criando um novo espaço para que as mais variadas organizações da sociedade pudessem trocar experiências e discutir outro mundo possível, tendo em vista a crise e a impossibilidade de resolvê-la pelas formas tradicionais: os partidos políticos, governos e toda a estrutura do estado atual.
5-O Fórum e as mudanças. O Fórum Social Mundial tem um papel muito importante no processo das transformações históricas, até mesmo porque, em conjunto com as organizações sociais, abriu um debate promissor acerca de temas cruciais. Novas proposições estão sendo engendradas sobre todos os aspectos da vida humana, num diálogo jamais visto e de uma forma permanente, por meio de redes que estão sendo montadas nas diversas temáticas. O processo de diálogo está possibilitando a criação de consensos e a consolidação de conhecimentos que vão se formando, paulatinamente, numa relação teórico-prática. Criam-se novos conceitos que funcionam como idéias-força no processo de mudanças.
6-A nova espiritualidade. Surge uma nova “espiritualidade universal”. Ela é resultado do reconhecimento do homem como ser do amor, da fraternidade e da solidariedade. Valores da religiosidade, das tradições seculares, das sabedorias ancestrais e dos próprios movimentos e organizações sociais, constituíram valores humanos universais. Esta espiritualidade universal traduz a relação dos homens com a natureza (Pacha Mama – Mãe Terra) e dos homens entre si.
7-A cidadania mundial. Finalmente, o outro importante sinal de mudanças no nosso tempo é a construção de uma cidadania mundial, denominada “globalização da cidadania” e também de “globalização da solidariedade”. Ela se dá em várias frentes, seja nos avanços do Fórum Social Mundial, na “globalização das lutas”, na ampliação das redes, pelo desafio da globalização da crise e pela velocidade de circulação da informação, através da Rede Mundial de Computadores, a internet. Mas a cidadania mundial só se realizará completamente se as questões mundiais forem assumidas na vida quotidiana, em cada lugar do Planeta, numa conexão com a organização social local.
8-A proposta das Aldeias. É preciso dar um salto de qualidade nas formas locais de organização, num processo inovador, diferente de tudo o que tivemos até agora, que nos ajude a transitar no século XXI, que nos dê a força e a energia necessárias, promovendo as mudanças de “baixo para cima”!
O movimento Aldeias para um Novo Mundo é uma nova organização social comunitária. Tem como base os conceitos de autonomia, autogestão, liberdade, comunidade, solidariedade, paz e não-violência, cidadania mundial, espiritualidade amorosa e o trabalho em rede.
Ela é a síntese da espiritualidade amorosa com a cidadania mundial do cuidar de todos e do mundo todo. Cuidar de todos é o exercício do amor sem distinção, mas também significa cuidar dos que mais necessitam. Mas é um amor com cidadania e não meramente assistencialista. Resgata o comunitário, aspecto essencial do humano (a família é o nosso primeiro espaço comunitário). Cuidar do mundo todo é cuidar do planeta, da Mãe Terra. Cuidar do mundo é reconhecer que dependemos uns dos outros.
A amorosidade, a primeira virtude do amor, se dá numa comunidade que tem como foco o bem comum, pois assim estamos cuidando da melhor forma de cada um de nós. A cidadania e a espiritualidade se encontram para mudar o mundo e a nós mesmos.
As Aldeias vivenciam valores humanos como a solidariedade, reciprocidade, acolhimento, diálogo, direitos humanos, cultura de paz, busca do consenso e cidadania. De âmbito local comunitário, as Aldeias se organizam horizontalmente, como uma rede, compartilhando experiências e conhecimentos. Esta rede se expande sem limites, mas tem como base a Aldeia.
As Aldeias têm como primeira tarefa pesquisar as iniciativas sociais locais de interesse público, que existem numa determinada localidade, num bairro, numa cidade, numa vila rural. É necessário, então, fazer um cadastro detalhado, de modo a esclarecer quais são as demandas daquela iniciativa. A proposta é a de participar da gestão da cidade/vila, colaborar com as autoridades, apoiar iniciativas de interesse público, fiscalizar o mandato dos eleitos, ampliar a ação dos cidadãos e da sociedade nas organizações e nas políticas públicas.
Exercer a cidadania mundial nas Aldeias significa articular as questões locais com as globais e estar presente, de várias formas, nos desafios colocados mundialmente. A corrente do bem se faz cuidando do público com ações (não monetárias), em favor do bem comum, por meio de créditos (pessoais ou coletivos) na Aldeia. Os que ajudaram a promover ações a favor das iniciativas de interesse público passam, opcionalmente, a ter créditos (sem valor monetário, mas que vão suprir necessidades humanas). Existem também mecanismos de auto-ajuda dentro de cada Aldeia e entre elas, como se todos fossem uma mesma comunidade, uma grande Aldeia. Esta interação se faz através de reuniões nos bairros, nas cidades e nas vilas. Criam-se também novos meios de integração, comunicação e intercâmbio, como a internet. As Aldeias - como movimento autônomo e autogestionário - se organizam horizontalmente, em rede. Cada Aldeia é livre nas suas ações e sua única obrigação é seguir a Carta de Princípios. Articula-se com outras Aldeias para celebrar, festejar, pensar e agir frente a questões locais/regionais/nacionais/mundiais, usando o Fórum Social Mundial como suporte para as suas ações, já que as atividades locais se conectam com as globais.
9-Cuidar do bem comum. O movimento social “Aldeias para um Novo Mundo” é uma contrapartida de base ao movimento de mudanças que se faz necessário no mundo de hoje e que se expressou no Fórum Social Mundial. Cidadania e espiritualidade se encontram para celebrar a Vida e a Humanidade. “Cuidar do bem comum” é a melhor forma de amar, é cuidar da nossa comunidade, cuidar de todos e da Mãe Terra, construindo um futuro de felicidade para toda a Humanidade.
10-Você pode criar uma Aldeia. Você e seu grupo de amigos e amigas, colegas, vizinhos, na escola, no bairro, no trabalho, no campo ou na cidade podem criar uma Aldeia. Basta reunir pelo menos 10 pessoas que concordam com a Carta de Princípios. Em seguida, comunique à Secretaria do movimento, que funciona como facilitadora e animadora, através do sítio www.aldeas.org. Comunidades já existentes também podem participar do movimento, desde que concordem com a Carta de Princípios e resolvam colocá-la em prática. Na Aldeia todos são iguais, irmãos e irmãs que compartilham e se apóiam mutuamente para trazer a felicidade, o bem-estar e o progresso. No mundo globalizado, somos uma comunidade mundial, a partir da nossa comunidade local e, assim, vamos tecendo uma rede e construindo uma corrente de cidadania e amor, rompendo as barreiras, as formalidades e os preconceitos que separam homens e mulheres no mundo inteiro!
AMAR E SER CIDADÃO É CUIDAR DE TODOS E DO MUNDO TODO! | ||










